Por anos, investir em tecnologia no varejo foi tratado quase como uma corrida: testar tudo, abrir frentes em paralelo, ocupar o maior número possível de iniciativas ao mesmo tempo. Essa lógica, contudo, começa a mudar. Os próprios clientes já apontam um 2026 mais cauteloso com sinais de retração econômica no período pós-Copa do Mundo e eleitoral. Isso também altera a forma como esses investimentos são estruturados e operacionalizados.
O estudo da KPMG “Global AI in Finance Report”, com recorte para o mercado de consumo e varejo, ajuda a dimensionar essa guinada: a adoção de agentes de inteligência artificial (IA) no segmento deve disparar de 33% para 85% até 2027. Segundo o levantamento, esse salto abre espaço para estratégias mais modulares concentradas em ganhos acelerados – os já conhecidos “quick wins” – capazes de capturar valor sem a complexidade de projetos longos e custosos.
É exatamente essa pivotação de lógica que vemos, hoje, na dinâmica das operações de varejo. A alocação de recursos migra de dispersa para seletiva e cirúrgica: em vez de dezenas de projetos simultâneos, as empresas priorizam poucas iniciativas com alta assertividade e rápida monetização, exigindo provas de valor imediatas como pré-requisito para qualquer escala.
Esse é o tom que domina as rodas de conversa do setor nas últimas semanas. Os grandes encontros de e-commerce e varejo que se aproximam no calendário paulista já deixam claro que o discurso de tráfego e investimento a qualquer custo perdeu espaço para debates sobre rentabilidade e eficiência – um sinal de que a cautela dos consumidores chegou às salas de decisão.
Essa disciplina orçamentária aparece com força em previsões internacionais para este ano. A Forrester estima que cerca de um quarto dos aportes em IA planejados pelas empresas para 2026 será adiado para 2027, à medida que diretores financeiros passam a ter peso maior na aprovação desses investimentos – sempre em função do retorno mensurável.
É esse tipo de disciplina que tenho observado de perto na minha rotina com varejistas nos últimos meses: soluções calcadas em ciência e dados reais e uma IA “pé no chão” – projetos de ciclo curto que movem o ponteiro do negócio e auxiliam o varejista a sobreviver e crescer mesmo sob restrição de capital.
Na prática, um quick win de verdade tem escopo claro, prazo exíguo e indicador específico para provar o impacto precedendo qualquer discussão sobre rollout. O ponto é provar com celeridade e dados reais antes de colocar orçamento e equipe em apostas maiores.
O risco, nesse cenário, corre nos dois sentidos. Parar de investir por cautela tende a custar caro no médio prazo, já que os concorrentes que seguirem testando e aprendendo vão acumular vantagem. No entanto, insistir na dispersão de sempre, sem critério nem provas de valor, tornou-se inviável em um ano de aperto de margens.
O futuro não será de quem investir mais, mas de quem souber investir melhor: identificar problemas reais, testar soluções com agilidade, mensurar resultados e tracionar apenas o que comprovadamente gera valor. Em um panorama de maior pressão por eficiência, a IA evolui de uma aposta tecnológica para uma decisão de negócio. O varejo que conseguir combinar disciplina financeira com velocidade de execução vai sair na frente.
Artigo escrito por Alexsandro Monteiro, diretor de Retail da FCamara
