Aberta ao público no Museu da Imagem e do Som do Ceará (MIS) até 26 de junho, a exposição A Fortaleza de Dentro apresenta a cidade a partir do olhar de quem a vive. Reunindo fotógrafos de diferentes territórios periféricos da capital, a mostra constrói narrativas que evidenciam memórias e experiências cotidianas.
A flor do deserto do Bom Jardim
Dona Tetê é uma das moradoras mais antigas e conhecidas do Bom Jardim. Quando foi fotografada por Flávia Almeida, vivia os primeiros meses após a morte do marido, período marcado pelo luto e seu impacto emocional. Presente na abertura da exposição, protagonizou um dos momentos mais marcantes da noite ao reencontrar o registro de sua própria trajetória de resistência. Até por isso, a obra recebeu o título Flor do Deserto: uma narrativa de força e beleza permanentes em sua história.
O ensaio aconteceu no quintal de sua casa, um jardim amplo cultivado ao longo dos anos, repleto de plantas com espécies colecionadas pela moradora. A experiência levou a fotógrafa a refletir sobre o papel da fotografia diante das histórias que registra:
“Quais responsabilidades nós temos ao produzir mais imagens para esse mundo que já nos bombardeia com elas todos os dias? A imagem é terra fértil para evocar e transformar sentimentos e afetividades.” – Flávia Almeida
Uma cena da Sabiaguaba entre alagamentos e invenções
Na Sabiaguaba, um problema estrutural é frequentemente ressignificado pelos moradores, especialmente pelas crianças, como danação e lazer. O fotógrafo V2nnicius registra um desses momentos ao retratar o que acontece no alagamento da ponte, acesso principal do território. Em períodos chuvosos, a comunidade convive com a falha na infraestrutura sem deixar que ela determine sua experiência cotidiana:
“A gente vê e entende o problema, mas contorna essa situação e transforma em alegria.” – V2nnicius

V2niccius com suas fotografias “voos de braço aberto” e “sem medo” (Foto: Jeftahel Helano)
Saiba mais sobre a exposição
Para os curadores Leo Silva e Karine Araújo, a mostra fotográfica também propõe uma reflexão sobre a crescente estetização das periferias nas imagens contemporâneas. Ao ocupar institucionalmente o MIS com artistas periféricos, a mostra desloca as formas tradicionais de representação desses territórios e evidencia suas múltiplas camadas, sem reduzi-los à vulnerabilidade, resistência ou exotismo.

Momento da abertura em que os curadores convidaram todos os artistas fotógrafos presentes para um registro coletivo. (Foto: Jeftahel Helano)
Ainda estiveram presentes e com falas potentes, a diretora e a coordenadora de comunicação do Sobrado José Lourenço, Germana Vitoriano e Luizete Vicente da Silva, respectivamente, Aline Albuquerque, Gerente de Difusão e Ação Cultural do MIS, Iana Soares, diretora executiva do Instituto Mirante e Leandro Maciel, coordenador de políticas para as artes da Secretaria de Cultura do Ceará.
Mesmo ocupando espaço institucional, a articulação da mostra acontece de forma independente, fortalecendo redes entre artistas e comunidades periféricas. A realização acontece em parceria com o Sobrado Dr. José Lourenço, Museu da Imagem e do Som do Ceará, Instituto Mirante de Cultura e Arte e Secretaria da Cultura do Estado do Ceará.
Acompanhe Leo Silva e Karine Araújo nas redes sociais
