Crédito: Jorge de Silveira
A Cave apresenta a exposição “Assombro”, primeira individual da artista mineira Rita Lessa. Com a curadoria de Lucas Dilacerda, e texto crítico de Clarissa Diniz, a mostra reúne pinturas, têxteis e esculturas que atravessam 50 anos de pesquisa e produção sobre a imagem como um campo de manifestação de imagens do inconsciente.
Nascida em Belo Horizonte, em 1959, Rita Lessa foi aluna de Amilcar de Castro na Escola Guignard, estudou com Lygia Pape, e conviveu com Nise da Silveira no Museu de Imagens do Inconsciente. A artista compreende a pintura como uma escuta, isto é, como um meio de acessar dimensões subterrâneas da experiência, onde formas emergem como presenças híbridas, situadas entre figuração e abstração.
Segundo Lucas Dilacerda, “as imagens fulgurantes de Rita habitam o limiar tênue entre a figuração e a abstração, entre o concretismo e a geometria livre, entre o belo e o grotesco, entre o estranho e o familiar. A pesquisa dela articula diversos temas como arte povera, surrealismo, misticismo, erotismo, fantasmagoria e bestiário medieval. Com uma mão descolonizada da representação, o seu traço livre se aproxima dos desenhos de criança, articulando impulsos primevos e signos selvagens”.
Clarissa Diniz, que assina o texto crítico da mostra, diz que a obra de Rita funciona como “um ecossistema figuratório que não anseia ser um arquivo de imagens, senão um sistema vivo e aberto de figuráveis relações. Nele, linhas, corpos, grafismos, movimentos e manchas se articulam num regime de figurabilidade que tensiona os limites entre o figurativo e o não figurativo”.
As imagens de Rita nascem do espanto primordial com o mundo, desse contato avassalador do sujeito com o fora. A sua pintura é uma escuta das vozes de um inconsciente coletivo, de uma dimensão subterrânea da realidade que nos atravessa e nos constitui, uma dimensão que é povoada por imagens que estruturam a nossa cultura e a nossa subjetividade em sua dimensão simbólica e sensorial. A sua pintura é uma escuta das imagens mais primordiais da humanidade. As suas telas são verdadeiros portais que libertam/dão vazão e passagem à esses impulsos, que se apresentam como criaturas que apelam para se materializar em pinturas, esculturas e tecidos, encharcados de matéria, que improvisam uma arquitetura frágil, cambiante e pós-apocalíptica.
