O mito do fundador “incansável” está com os dias contados. Dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) mostram que os afastamentos por burnout no país cresceram 823% em quatro anos, saltando de 823 casos em 2021 para 7.595 em 2025 — um avanço que já responde por um impacto econômico estimado em quase R$ 400 bilhões por ano em produtividade, ausências e rotatividade. Somente no primeiro trimestre de 2026 foram 1.528 novos afastamentos por esgotamento, volume que praticamente dobrou de janeiro (418 casos) para março (723).
Por trás desse salto, especialistas apontam uma raiz biológica comum, silenciosa e ainda pouco discutida nas empresas: o burnout dopaminérgico. Para a especialista em saúde mental e neurofeedback Anelise Pirola, o cérebro humano, mantido sob bombardeio constante de dopamina — estimulado pelo ciclo ininterrupto de métricas, crescimento e notificações —, atinge um limite biológico que compromete a capacidade de inovação e de decisão de líderes em todo o país. “A idade não oferece proteção contra o colapso. O que observamos no consultório é que líderes de tecnologia, mesmo os mais experientes, estão tratando seus cérebros como hardwares que não precisam de manutenção, até que o sistema trave”, explica Anelise Pirola. A tese central da especialista é direta: o cérebro, quando mantido sob dopamina constante, perde a capacidade de distinguir uma startup em aceleração de qualquer outro sistema em sobrecarga.
O quadro coloca o Brasil na segunda posição do ranking mundial de burnout, atrás apenas do Japão: segundo a International Stress Management Association (Isma) e a Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt), 3 em cada 10 profissionais brasileiros já apresentam sintomas da síndrome, contra 70% no país asiático.
No ecossistema de tecnologia e startups, a fotografia é ainda mais crítica. Levantamento da Endeavor Brasil em parceria com o BID Lab, com fundadores de startups e scale-ups, aponta que 94,1% já enfrentaram pelo menos uma condição adversa de saúde mental na jornada empreendedora — 85,6% relatam ansiedade e 37% relatam burnout diretamente. No topo da hierarquia corporativa, uma pesquisa global da Deloitte mostra que cerca de 70% dos executivos C-level consideram seriamente deixar seus cargos em busca de qualidade de vida, pressionados pelo esgotamento físico e mental.
O alerta vermelho: o que precisa ser feito agora
Para evitar o colapso sistêmico nas empresas e o esgotamento precoce de seus líderes, a recomendação das principais diretrizes de neurociência e psicologia corporativa é clara: é urgente a implementação de auditorias de estresse e pausas cognitivas estruturadas na rotina de governança das organizações.
Esperar o diagnóstico de exaustão clínica para agir significa perder ativos intelectuais vitais e paralisar a capacidade de inovação das organizações. Com o Brasil registrando recorde histórico de mais de 530 mil afastamentos por transtornos mentais em 2025 — segundo o Ministério da Previdência Social —, o cuidado com a reserva cognitiva deixou de ser um benefício opcional e passou a ser o principal indicador de sustentabilidade de qualquer negócio de alto crescimento.
