Ozempic – Créditos: depositphotos.com / MillaFedotova
Essa é uma questão especialmente importante para mulheres a partir dos 40 anos que utilizam medicamentos injetáveis para emagrecimento. Durante o climatério, período de transição que antecede a menopausa, e também na menopausa, a preocupação não deve ser apenas reduzir quilos, mas preservar o máximo possível de massa muscular.
Isso ganha ainda mais importância nessa fase da vida porque a mulher já está mais vulnerável à perda muscular. O envelhecimento favorece uma redução progressiva da massa e da força muscular, enquanto as alterações hormonais características do climatério e da menopausa podem acentuar esse processo e dificultar a manutenção e o ganho de músculos.
Para Flávia Cyfer, nutricionista funcional especializada em saúde da mulher 40+, com atuação especialmente voltada ao climatério e à menopausa, esse é um ponto que deve ser observado desde o início do processo de emagrecimento.
“Na minha prática clínica e também no contato diário com minhas alunas, vejo muitas mulheres felizes porque perderam vários quilos. Mas, ao avaliar a composição corporal, percebo que uma parte dessa perda aconteceu também às custas da massa muscular. É por isso que não basta acompanhar apenas o número da balança”, afirma.
Uma análise do estudo SURMOUNT-1, publicada em 2025 na revista Diabetes, Obesity and Metabolism, avaliou a composição corporal de 160 adultos com sobrepeso ou obesidade durante 72 semanas. Entre os participantes tratados com tirzepatida, aproximadamente 75% do peso perdido correspondeu à gordura e 25% à massa magra, que inclui os músculos, além de água e outros tecidos.
Os pesquisadores observaram proporção semelhante entre os participantes que receberam placebo, indicando que a perda de massa magra não deve ser interpretada como efeito exclusivo do medicamento, mas como uma questão relevante nos processos de emagrecimento.
Pouca massa muscular pode dificultar o emagrecimento e a manutenção do peso
A massa muscular participa do gasto energético do organismo. Quando uma pessoa perde muito peso e, junto com ele, uma quantidade significativa de músculos, ocorre também uma redução desse tecido metabolicamente ativo, o que pode contribuir para diminuir ainda mais o gasto energético diário. Na prática, uma mulher pode terminar o processo pesando menos, mas com uma necessidade energética menor do que tinha anteriormente.
“Se uma mulher emagrece muito, mas perde uma quantidade importante de músculo junto, ela pode terminar o processo com um gasto energético ainda menor do que antes. Isso pode tornar o emagrecimento cada vez mais difícil, inclusive durante o próprio tratamento. É por isso que muitas mulheres acabam estabelecendo uma certa dependência do uso da caneta para conseguir sustentar o peso. Quando interrompem a medicação, mesmo comendo pouco, podem ter muita dificuldade para manter o resultado conquistado”, explica Flávia.
Músculo é longevidade
A massa muscular vai muito além da estética. Está relacionada à força, mobilidade, equilíbrio, autonomia, saúde metabólica e controle da glicose e, associada ao exercício de força, contribui para a manutenção da saúde óssea e para maior estabilidade das articulações.
“Quando pensamos em longevidade, o músculo é fundamental. Não se trata apenas de chegar aos 60, 70 ou 80 anos com um peso adequado, mas de chegar forte, com independência e capacidade de realizar as atividades da vida cotidiana”, afirma.
Menos fome exige mais estratégia
Um dos efeitos esperados dos medicamentos utilizados para controle do peso é a redução do apetite. Na prática, muitas pacientes passam a consumir volumes menores de alimentos — e isso pode significar também uma ingestão insuficiente de proteínas. Um dos principais objetivos durante esse processo é atingir uma meta diária adequada de proteína, calculada individualmente, distribuí-la ao longo do dia e considerar a qualidade das fontes escolhidas. Mesmo com o apetite muito reduzido, existem estratégias para aumentar a densidade proteica das refeições e ajudar a atingir essa meta sem exigir grandes volumes de comida.
“Para preservar massa muscular, é fundamental associar uma ingestão proteica adequada ao treinamento de força. A alimentação fornece a matéria-prima necessária para a síntese muscular, enquanto o exercício gera o estímulo para que esse tecido seja preservado e desenvolvido”, explica Flávia.
Musculação e outras modalidades de exercício resistido têm papel central nessa estratégia.
“Quando uma mulher começa a usar uma caneta para emagrecer, uma das primeiras perguntas deveria ser: ‘O que vamos fazer para proteger os seus músculos?. Porque perder peso é apenas uma parte do tratamento. A qualidade do peso perdido e a capacidade de sustentar esse resultado depois importam tanto quanto o número que aparece na balança”, conclui.
