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A decisão sobre quem realmente precisa ser operada, qual é a extensão ideal da cirurgia e até quando determinados procedimentos podem ser evitados com segurança será um dos principais eixos científicos do Congresso Brasileiro de Câncer na Mulher, promovido pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), de 6 a 8 de agosto, no Minascentro, em Belo Horizonte. A programação reunirá especialistas brasileiros e convidados internacionais para discutir como a medicina de precisão vem transformando o tratamento do câncer de mama, colo do útero, endométrio e ovário, permitindo decisões cada vez mais individualizadas e menos invasivas quando respaldadas pelas evidências científicas.
A relevância dessas discussões acompanha a dimensão do problema. Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) para o triênio 2026-2028, os principais cânceres que acometem as mulheres deverão somar mais de 115 mil novos casos por ano no Brasil. O câncer de mama permanece como o mais incidente entre a população feminina, com estimativa de 78.610 novos casos anuais, seguido pelo câncer do colo do útero (19.310), do corpo do útero (9.650) e do ovário (8.020).
“Além de serem cânceres extremamente frequentes, estamos falando de doenças cuja abordagem mudou profundamente nos últimos anos. A oncologia caminha para uma medicina cada vez mais personalizada, capaz de definir com maior precisão quais pacientes realmente se beneficiam de procedimentos mais extensos e em quais situações é possível reduzir tratamentos sem comprometer a segurança oncológica”. Os avanços no diagnóstico precoce e no tratamento têm aumentado significativamente as chances de cura quando a doença é identificada em estádios iniciais”, afirma Paulo Henrique Fernandes, cirurgião oncológico e presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO).
Para os organizadores, essa mudança de paradigma atravessa praticamente toda a programação científica. Em diferentes tipos de câncer, decisões antes baseadas predominantemente na localização e no tamanho do tumor passaram a incorporar informações obtidas por exames de imagem de alta resolução, testes moleculares, biomarcadores, resposta aos tratamentos sistêmicos e características individuais de cada paciente.
Os principais debates do congresso
Um dos momentos mais aguardados da programação está previsto para a manhã de 7 de agosto, com o painel “Câncer de mama inicial: estamos finalmente operando menos?”. A discussão reunirá o cirurgião oncológico Leonardo Santos (DF), do Hospital DF Star Rede D’Or; a radiologista Patrícia Cristina Silva Lima Fernandes (MG), coordenadora da ressonância magnética mamária do Hospital Felício Rocho; o cirurgião oncológico Antônio Bailão, do Hospital de Amor Barretos e o mastologista René Aloisio Vieira (SP), do Hospital do Câncer de Muriaé. O grupo discutirá como a integração entre imagem, biologia tumoral e radioterapia vem permitindo reduzir a extensão das cirurgias em pacientes cuidadosamente selecionadas.
“Hoje, a ciência nos mostra que, para muitas pacientes, menos pode ser mais. A combinação entre exames de imagem de alta precisão, conhecimento da biologia tumoral e avaliação individualizada permite indicar tratamentos menos agressivos, com redução da cirurgia axilar, menor necessidade de novas cirurgias e, em situações específicas, até da radioterapia, sem comprometer os resultados oncológicos”, comenta Juliano Cunha, cirurgião oncológico e diretor de Comunicação da SBCO. ( talvez aqui caiba presidente do congresso)
Na sequência, outro painel promete concentrar grande atenção dos participantes: “Cirurgia axilar em 2026: quanto é realmente necessário?”. A sessão discutirá questões que vêm remodelando a prática clínica, como a possibilidade de omitir o linfonodo sentinela em situações específicas, quando o esvaziamento axilar ainda é indicado e em quais cenários a radioterapia pode substituir procedimentos cirúrgicos.
“A expectativa é que essa seja uma das sessões mais concorridas do congresso. Estamos discutindo perguntas que podem redefinir a prática dos próximos anos, como quando ainda indicar o esvaziamento axilar, em quais pacientes podemos abandonar o linfonodo sentinela e qual será o papel crescente da radioterapia nessas decisões”, afirma Cunha.
As discussões sobre câncer de mama prosseguem ao longo dos três dias do congresso com sessões dedicadas ao descalonamento terapêutico, aos novos algoritmos de decisão após a neoadjuvância, ao papel dos biomarcadores, dos escores de risco poligênico, das terapias agnósticas, dos anticorpos droga-conjugados (ADCs) e da inteligência artificial no planejamento cirúrgico.
Na oncoginecologia, a programação acompanha a mesma tendência de individualização do tratamento. Um dos destaques será o simpósio “Câncer de endométrio na era molecular: estamos operando as pacientes certas?”, dividido em duas partes. Especialistas discutirão como a classificação molecular, o novo estadiamento FIGO 2023 e as recentes diretrizes internacionais ESGO-ESTRO-ESP vêm modificando a indicação da cirurgia, da pesquisa do linfonodo sentinela e dos tratamentos complementares.
Outras mesas abordarão a prevenção do câncer de ovário por meio da salpingectomia oportunista, a redução da radicalidade no tratamento do câncer do colo do útero, a incorporação da imunoterapia e das terapias-alvo no câncer de endométrio avançado, além dos desafios relacionados à qualidade de vida, reabilitação, sexualidade e sobrevivência após o tratamento oncológico.
O congresso contará ainda com dois convidados internacionais. O cirurgião oncológico colombiano René Pareja apresentará conferências sobre prevenção do câncer de ovário e participará das discussões sobre câncer de endométrio. Já o cirurgião oncológico canadense Ari Nareg Meguerditchian ministrará palestras sobre as principais tendências no tratamento do câncer de mama e sobre qualidade assistencial em oncologia.
Além da programação específica sobre os cânceres da mulher, o congresso promoverá sessões multidisciplinares dedicadas à inteligência artificial aplicada à saúde, genética e aconselhamento genético, qualidade assistencial, educação médica, espiritualidade, reabilitação, sexualidade, qualidade de vida, discussão de casos clínicos complexos (tumor boards), atualização das principais evidências científicas e perspectivas para o futuro da oncologia. A programação também abordará temas como cirurgia robótica, medicina minimamente invasiva, prevenção do câncer hereditário, preservação da fertilidade, uso de novas tecnologias na prática cirúrgica e os impactos da inovação na formação e na assistência em saúde, reforçando a necessidade de um cuidado cada vez mais integrado, personalizado e centrado na paciente.
