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Quatro tipos mais comuns de câncer no abdômen somam quase 60 mil novos casos anuais no Brasil

O Brasil deverá conviver, nos próximos anos, com um peso cada vez maior dos cânceres abdominais em sua carga oncológica. Segundo as estimativas do Instituto Nacional de Câncer para o triênio 2026–2028, os quatro tipos mais comuns de câncer no abdômen (estômago, pâncreas, esôfago e fígado) somarão aproximadamente 59,5 mil novos casos anuais. O número representa um aumento em relação ao triênio anterior (2023–2025) e ajuda a dimensionar a relevância crescente desses tumores no cenário nacional.

Os dados mostram que o câncer de estômago permanece como o mais incidente entre eles, com estimativa de 22.530 novos casos por ano, frente a 21.480 no triênio anterior, um aumento de 4,89%. O câncer de esôfago também segue em elevação, passando de 10.990 para 11.390 casos anuais, crescimento de 3,64%. Já o câncer de fígado apresenta uma das curvas mais preocupantes, com salto de 10.700 para 12.350 casos por ano, alta de 15,42%. O maior crescimento proporcional, no entanto, é observado no câncer de pâncreas, que passa de 10.980 para 13.240 novos casos anuais, um aumento expressivo de 20,58%.

Esses números, quando analisados em conjunto, revelam não apenas a magnitude do problema, mas também a complexidade envolvida em seu enfrentamento. São tumores que, em grande parte, cursam com sintomas inespecíficos nas fases iniciais, dificultam o diagnóstico precoce e, frequentemente, estão associados a fatores de risco que se acumulam ao longo da vida.

O desafio silencioso do câncer de pâncreas

Entre os quatro tumores abdominais, o câncer de pâncreas ocupa posição singular pela combinação de baixa incidência relativa e altíssima letalidade. Responsável por cerca de 1% dos diagnósticos oncológicos no país, ele responde por aproximadamente 5% das mortes por câncer. A explicação está, em grande medida, no fato de que cerca de 80% dos pacientes descobrem a doença em estágios avançados, quando as possibilidades de cura são limitadas.

“O câncer de pâncreas é um dos maiores desafios da oncologia contemporânea justamente porque ele se desenvolve de forma silenciosa e agressiva”, afirma Felipe José Fernández Coimbra, cirurgião oncológico, secretário-geral da Sociedade Mundial de Cirurgia Oncológica (WSSO), diretor do Instituto Integra e líder do Centro de Referência em Tumores do Aparelho Digestivo Alto do A.C.Camargo Cancer Center. “Os sintomas iniciais são vagos, como dor abdominal ou lombar difusa, perda de peso ou fraqueza, diabetes, e acabam sendo atribuídos a problemas comuns do dia a dia, o que atrasa a investigação”. 

Segundo o especialista, o cenário atual não é reflexo apenas da biologia agressiva do tumor, mas também da ausência de políticas estruturadas de rastreamento para grupos de risco. Tabagismo, obesidade, e sedentarismo seguem como fatores modificáveis importantes, enquanto histórico familiar, pancreatite hereditária, certos tipos de cistos pancreáticos e síndromes genéticas hereditárias exigem vigilância especializada. “Prevenção e diagnóstico precoce não são utopias. Temos exames e estratégias capazes de identificar a doença mais cedo, mas precisamos integrar melhor gastroenterologistas, endocrinologistas, cirurgiões e outros especialistas para não perder oportunidades raras de intervenção”, destaca Coimbra.

Avanços tecnológicos, como protocolos de imagem mais refinados, ecoendoscopia, inteligência artificial aplicada à radiologia e testes baseados em marcadores tumorais, ampliam as possibilidades de diagnóstico antecipado. Ainda assim, o acesso desigual a esses recursos mantém o câncer de pâncreas como um retrato das desigualdades regionais e estruturais do sistema de saúde brasileiro.

Estômago: alta incidência e prevenção possível

O câncer de estômago segue como o tumor abdominal mais frequente no país. Embora o aumento percentual seja menor do que o observado em outros tipos, o volume absoluto de casos mantém a doença como um importante problema de saúde pública. Um dos principais fatores de risco é a infecção pela bactéria Helicobacter pylori, capaz de se alojar no estômago, prejudicar sua barreira protetora e induzir inflamação crônica.

Estima-se que entre 70% e 80% da população mundial tenha infecção crônica pela H. pylori, sendo que cerca de 90% dos infectados são assintomáticos. Esse dado ajuda a explicar por que o câncer gástrico frequentemente evolui de forma silenciosa. “A erradicação da H. pylori em populações de alto risco é uma estratégia fundamental de prevenção”, explica Coimbra. “Pacientes que apresentam, na endoscopia, alterações como gastrite crônica, atrofia, metaplasia ou displasia devem ser acompanhados de perto, porque o risco de progressão para câncer é maior.”

Além da infecção bacteriana, hábitos alimentares desempenham papel relevante. O consumo excessivo de sal e de alimentos ricos em nitrosaminas, como embutidos e enlatados, está associado ao aumento do risco de câncer de estômago. Já os sintomas iniciais, como desconforto abdominal, azia, inchaço ou saciedade precoce, costumam ser confundidos com indigestão ou refluxo, retardando o diagnóstico. Em estágios avançados, surgem sinais mais evidentes, como perda de peso, anemia, fezes escuras, vômitos e dor abdominal persistente.

Esôfago: diagnóstico tardio e fatores de risco bem definidos

O câncer de esôfago apresenta um padrão semelhante ao do pâncreas no que diz respeito ao diagnóstico tardio. Nos estágios iniciais, a doença geralmente não provoca sinais de alerta claros, permitindo que o alimento continue a passar pelo órgão mesmo diante de obstruções significativas. Quando os sintomas aparecem (dificuldade para engolir, dor no peito, perda de peso ou rouquidão persistente), o tumor muitas vezes já se encontra em estágio avançado.

Fatores de risco como tabagismo e consumo excessivo de álcool continuam entre os mais relevantes, especialmente para o carcinoma de células escamosas. Já o adenocarcinoma do esôfago está fortemente associado à doença do refluxo gastroesofágico, que acomete cerca de 20% dos brasileiros, e ao esôfago de Barrett, condição em que o refluxo crônico altera o revestimento do órgão. Tabagismo, obesidade, idade acima de 50 anos e sexo masculino também aumentam o risco.

“A boa notícia é que boa parte desses fatores é modificável”, ressalta Coimbra. “Reduzir o tabagismo e o consumo de álcool, controlar o peso e tratar adequadamente o refluxo são medidas que têm impacto real na prevenção do câncer de esôfago.” A vigilância regular de pacientes com condições predisponentes pode permitir a identificação de lesões precursoras e evitar a progressão para tumores invasivos.

Fígado: crescimento impulsionado por doenças crônicas

O câncer primário de fígado, em especial o carcinoma hepatocelular, apresenta crescimento consistente nas estimativas mais recentes. Em grande parte do mundo, até 80% desses tumores estão relacionados à infecção crônica pelos vírus das hepatites B e C, que ao longo de décadas podem levar à cirrose e, posteriormente, ao câncer. No Brasil, a ampliação do diagnóstico e do tratamento das hepatites tem impacto direto na prevenção, mas novos desafios surgem.

A doença hepática gordurosa não alcoólica, associada à obesidade, diabetes tipo 2 e síndrome metabólica, desponta como um fator de risco crescente. O consumo excessivo de álcool também agrava a progressão das doenças hepáticas e eleva o risco de câncer. Em muitos casos, o tumor é identificado durante o acompanhamento de pacientes com cirrose, já que os estágios iniciais costumam ser assintomáticos.

“Icterícia, perda de peso, dor abdominal e ascite (acúmulo de líquido no abdome) geralmente aparecem quando a doença já está avançada”, explica Coimbra. “Por isso, o rastreamento regular com exames de imagem em pacientes com hepatite crônica ou cirrose é essencial para detectar o câncer em fases mais tratáveis.” A vacinação contra hepatite B, o tratamento antiviral adequado e o acompanhamento sistemático são pilares fundamentais da prevenção.

Números que exigem resposta coordenada

O crescimento conjunto dos cânceres de estômago, pâncreas, esôfago e fígado reflete uma combinação de envelhecimento populacional, persistência de fatores de risco e limitações no acesso ao diagnóstico precoce. Para Coimbra, enfrentar esse cenário exige mais do que avanços tecnológicos isolados. “Estamos falando de tumores em que a cirurgia, quando possível, continua sendo a principal chance de cura, mas ela só é viável se o diagnóstico for feito a tempo”, afirma. “Isso exige organização em rede, integração entre especialidades e políticas públicas que garantam acesso rápido e equitativo ao cuidado”.

Os quase 60 mil novos casos anuais estimados pelo INCA não são apenas estatísticas. Eles representam milhares de histórias marcadas por diagnósticos tardios, tratamentos complexos e impacto profundo na vida de pacientes e famílias. De acordo com Felipe Coimbra, transformar esse panorama passa por investir em prevenção, educação em saúde, rastreamento de grupos de risco e redução das desigualdades regionais, um desafio de grande escala, mas incontornável para o futuro da Oncologia no Brasil.

By Jordan Vall

É jornalista, com uma maior atuação na cultura e entretenimento. Deu início a sua carreira na televisão, na TV Unifor, como produtor, repórter e apresentador do principal jornal da emissora universitária. O profissional já foi produtor e comentarista de um quadro do Programa Matina, na TV União. No “Deu O Que Falar”, quadro semanal da emissora aberta, comentava sobre o mundo dos famosos, levava pautas relevantes para a sociedade, através das notícias das celebridades. Foi durante 2 anos, produtor, diretor e repórter na TV Otimista e atualmente é assessor de comunicação, CEO na Assertiva Comunicação e Colunista do Portal Conexão Magazine (Portal de Notícias no Rio de Janeiro). O jornalista também é apresentador do Mesa de Negócios no Grupo Opinião Ceará. Como amante da moda, foi convidado para ser jurado da 6ª e 7ª edição do Salão de Moda Ceará. Além de todas essas atuações, Jordan é CEO/Fundador e repórter no IN Fluxo Portal, tratando de pautas culturais, cobertura de eventos e muito mais. O profissional também atua como modelo e influenciador digital. Instagram: @jordan_vall / contato comercial: jordanvall@influxoportal.com

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