A luta de uma campeã por respeito e inclusão no esporte
Luiza Marchiori não é apenas uma skatista talentosa. Ela é um símbolo de resistência, determinação e superação em um esporte que, apesar da sua imagem de liberdade e inclusão, ainda carrega barreiras de preconceito e discriminação. Primeira mulher trans a conquistar um título brasileiro de skate, Luiza dedicou essa vitória ao seu pai falecido, que sempre a incentivou a perseguir seus sonhos. No entanto, sua trajetória tem sido marcada por desafios brutais, boicotes, ameaças e uma transfobia estrutural que lhe tirou oportunidades e patrocinadores, mas jamais seu amor pelo esporte.
O Preço de Ser Quem Se É
Desde que decidiu competir na categoria feminina, Luiza enfrentou resistência de todos os lados. Em suas únicas duas competições na modalidade, skatistas se uniram para boicotá-la, pais de atletas organizaram campanhas contra sua participação e acusações infundadas foram disseminadas para tirá-la do circuito competitivo. O preconceito veio de colegas de pista, de organizações e do próprio público.
Com isso, 90% de seus patrocinadores a abandonaram. As marcas brasileiras, ainda pouco acostumadas a lidar com a diversidade de gênero, preferiram não “arriscar” associar-se a uma atleta trans. Como resultado, Luiza perdeu espaço em eventos importantes e viu sua presença em rankings competitivos ser comprometida por uma resistência que não tem nada a ver com sua performance no skate.
O Silêncio Cómplice e a Solidão na Luta
Mesmo dentro do próprio meio feminino do skate, Luiza encontrou barreiras inesperadas. Alguns skatistas apoiaram a sua presença, mas apenas nos bastidores, com medo de represálias. Nas redes sociais, ela é alvo constante de ataques, ofensas e ameaças, algo que muitas mulheres trans experimentam diariamente. As organizações e entidades que deveriam protegê-la, porém, não se manifestaram em sua defesa quando surgiram as primeiras notícias falsas sobre ela.
O caminho burocrático também foi repleto de obstáculos. Para obter a permissão de competir no feminino, ela precisou enfrentar exigências absurdas. Ao trocar de gênero, sua carreira foi praticamente invalidada, como se os anos dedicados ao skate simplesmente deixassem de existir.
O Papel Fundamental de Larissa Kretzer
Diante de todas as injustiças que enfrenta, Luiza conta com o apoio inestimável de sua advogada, Larissa Kretzer. Com um trabalho incansável, Larissa tem sido fundamental na defesa dos direitos de Luiza, garantindo que sua trajetória no skate não seja manchada por falsas acusações e ataques infundados. Sua atuação vai além das questões jurídicas; ela tem sido uma aliada essencial na preservação da imagem e da dignidade de Luiza. “Sou imensamente grata à Larissa por lutar comigo e por mim. Sem ela, seria ainda mais difícil enfrentar toda essa batalha”, reconhece Luiza. O suporte legal e estratégico de Larissa Kretzer tem sido um pilar essencial para que Luiza continue sua jornada com força e determinação.
O Amor Pelo Skate Acima de Tudo
Apesar de todos esses desafios, Luiza Marchiori segue firme em sua paixão pelo skate. Hoje, ela optou por não competir temporariamente, preservando sua paz e evitando a pressão de ser a pioneira nessa luta dentro do esporte. Prefere focar em gravar suas vídeo partes e manter vivo o amor pelo skate de maneira autêutica, sem se preocupar com dinheiro ou status.
“Chega uma hora que sua paz vale mais”, diz ela, destacando que sua trajetória é um aviso para outras atletas trans que desejam ingressar no esporte. Ela aconselha: “Levantem a cabeça e se preparem”.
O Que Precisa Mudar
Luiza defende que o skate precisa se tornar um ambiente mais inclusivo. Para isso, é necessário acabar com as “panelas” e com a mentalidade de que um atleta precisa ser “melhor” que o outro para ter espaço. Mais do que isso, é essencial que as pessoas busquem informação sobre questões de gênero, hormônios, respeito e empatia. “As pessoas precisam parar de julgar e começar a perguntar, a tentar entender”, enfatiza.
Uma Inspiração Para o Futuro
Mesmo sem apoio formal, a história de Luiza Marchiori já inspira atletas trans dentro e fora do skate. Outras esportistas que passaram por desafios semelhantes se solidarizam com sua luta e encontram força em sua trajetória. Luiza pode até não querer ser a primeira a “tomar as pedradas” para abrir esse caminho, mas o simples fato de continuar sobre seu skate, de desafiar a transfobia e de manter sua paixão viva, já faz dela uma pioneira.
O preconceito não vai apagá-la da história do skate. Pelo contrário, a história do skate precisa de Luiza Marchiori para se tornar realmente livre.