A rotina da enfermagem no centro cirúrgico tem se tornado cada vez mais complexa diante do aumento do volume de procedimentos, da pressão por eficiência operacional e das exigências crescentes relacionadas à qualidade e à segurança do paciente. Em ambientes críticos como a Sala de Recuperação Pós-Anestésica (SRPA), a fragmentação das informações clínicas e o retrabalho documental ainda figuram entre os principais gargalos enfrentados pelas equipes.
Nesse contexto, a enfermagem frequentemente atua como elo entre diferentes áreas assistenciais, lidando com registros manuais, lacunas na passagem de cuidado e dificuldade de acesso a dados completos do intraoperatório. Esse cenário não apenas sobrecarrega os profissionais, como também limita a previsibilidade do fluxo cirúrgico e aumenta os riscos associados à comunicação entre equipes.
Dados do Observatório Anestesia de Valor indicam a dimensão desse desafio. Em 2024, houve um crescimento superior a 34% de atendimentos na SRPA registrados em relação ao ano anterior. O levantamento também aponta que 5,87% dos pacientes chegam à SRPA com escore de Aldrete-Kroulik inferior a 8, exigindo atenção intensificada da enfermagem no pós-operatório imediato. Para especialistas, esse tipo de indicador é vital para a segurança e só se torna visível e gerenciável quando há um registro clínico estruturado e padronizado.
A adoção de sistemas digitais de gestão anestésica (AIMS – Anesthesia Information Management Systems) tem se consolidado como uma resposta a esses desafios. Ao integrar dados clínicos em uma linha temporal única, sistemas como o AxReg permitem que a enfermagem tenha acesso, em tempo real, a informações essenciais para a continuidade do cuidado, como medicamentos administrados, eventos intraoperatórios e critérios objetivos de alta anestésica.
Além do impacto assistencial, o uso de dados estruturados contribui diretamente para a gestão do fluxo. Na SRPA, o acesso a informações confiáveis permite maior previsibilidade na liberação de leitos, favorecendo o giro de salas e a organização da agenda cirúrgica. A informação deixa de cumprir apenas uma função documental e passa a orientar decisões operacionais.
Outro aspecto relevante é o fortalecimento da governança clínica. Registros digitais rastreáveis ampliam a segurança profissional da enfermagem e se tornam ativos estratégicos para hospitais envolvidos em processos de acreditação, como ONA e JCI. Indicadores consolidados facilitam auditorias, monitoramento de conformidade e iniciativas de melhoria contínua.
A transformação digital do perioperatório impacta diretamente o protagonismo da enfermagem. Quando a informação é confiável, acessível e integrada, a enfermagem deixa de atuar de forma reativa. Os dados passam a apoiar decisões clínicas, a organização do fluxo e a qualidade assistencial, fortalecendo tanto a segurança do paciente quanto os processos de gestão e acreditação hospitalar.
Para a Anestech, o avanço do perioperatório digital reflete uma tendência global de valorização da enfermagem. Mais do que automatizar registros, o uso inteligente dos dados amplia a capacidade das equipes de cuidar com mais segurança, previsibilidade e respaldo institucional.
Artigo escrito por Giorgio Pretto, médico anestesiologista, CMIO da Anestech
