Nos últimos anos, a preservação da fertilidade antes do início do tratamento contra o câncer tem ganhado cada vez mais espaço no cuidado oncológico. Com o avanço da oncofertilidade, pacientes diagnosticados em idade reprodutiva agora contam com alternativas seguras e eficazes, como o congelamento de óvulos ou sêmen, que podem permitir a realização do sonho da maternidade ou paternidade após a cura.
O congelamento de óvulos, sempre que possível é o procedimento de escolha para as mulheres em idade fértil que recebem o diagnóstico do câncer.Graças aos avanços da medicina reprodutiva, hoje é possível iniciar o processo imediatamente após o diagnóstico, sem a necessidade de aguardar o ciclo menstrual — como ocorria no passado. Em casos de câncer hormônio-dependente, como muitos tipos de câncer de mama, há protocolos hormonais específicos que tornam o procedimento seguro e viável, mesmo em meio à urgência do tratamento oncológico.
Após a cura, a fertilização in vitro (FIV) pode tornar a gravidez possível. Nessa técnica, o óvulo congelado é fertilizado em laboratório com o sêmen do parceiro ou doador, e o embrião é transferido para o útero. “A FIV pode ser uma ponte para transformar a preservação da fertilidade em realidade após o tratamento oncológico. Com ela, a paciente pode planejar a gestação no momento certo, com segurança médica e emocional. A maternidade muitas vezes representa normalidade, felicidade , realização de vida para os sobreviventes do câncer ”, afirma Wendy Delmondes, coordenadora do Centro de Reprodução Humana do Hospital Mater Dei Salvador (HMDS).
A medicina reprodutiva também oferece alternativas eficazes para homens, como o congelamento de sêmen antes da quimioterapia. O encaminhamento para centros especializados deve ser feito imediatamente após o diagnóstico, como parte do plano terapêutico integral.
Esse avanço se mostra essencial diante de uma realidade crescente: o aumento da incidência de câncer em pacientes jovens, tanto no Brasil quanto no mundo. Um estudo publicado na revista BMJ Oncology revelou que, entre 1990 e 2019, os casos globais de câncer em indivíduos com menos de 50 anos cresceram 79%. No Brasil, o INCA estima que até 10% dos casos de câncer de mama ocorram em mulheres em idade reprodutiva.
Para esses pacientes, a ameaça de não conseguir engravidar futuramente pode impactar diretamente sua qualidade de vida — e até influenciar a aceitação do tratamento sugerido. “ A ameaça à fertilidade pode provocar medo, sofrimento emocional e até quadros de ansiedade e depressão. Muitos pacientes reconsideram decisões terapêuticas quando não recebem orientação adequada sobre suas possibilidades”, destaca Wendy.
Além do impacto emocional, a falta de informação sobre as alternativas disponíveis é um obstáculo real. “Ainda há baixa conscientização sobre a oncofertilidade no país. A abordagem precisa ser precoce e ágil, para que o tratamento oncológico não seja atrasado e todas as opções sejam discutidas com segurança”, acrescenta a médica.
A boa notícia é que, com acompanhamento adequado, a gravidez após o câncer pode ser possível — e não representa risco aumentado de recorrência. Para os especialistas, garantir o acesso à oncofertilidade é também uma forma de humanizar o tratamento e ampliar as perspectivas de futuro dos pacientes oncológicos.