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Foto: Divulgação

Noélli Santiago propõe uma reflexão sobre como padrões de comportamento, expectativas e a necessidade constante de corresponder podem fazer com que as pessoas percam a conexão com seus desejos e com a própria existência.

Em uma sociedade que valoriza a produtividade, a capacidade de suportar pressões e a disposição permanente para resolver problemas, a reflexão de Noélli Santiago propõe uma pergunta: estamos construindo uma vida ou apenas aprendendo a resistir a ela?

Há uma diferença entre atravessar os dias e estar verdadeiramente presente neles. Embora pareçam experiências semelhantes, sobreviver e viver envolvem maneiras distintas de perceber o tempo, estabelecer prioridades e se relacionar com a própria existência.

Sobreviver, em muitos momentos, é uma necessidade. Diante de perdas, dificuldades financeiras, conflitos emocionais ou circunstâncias que fogem ao controle, resistir pode ser a única possibilidade disponível. O problema começa quando esse estado deixa de ser uma resposta a situações específicas e se transforma na maneira habitual de conduzir a vida.

A rotina continua funcionando. Os compromissos são cumpridos, as responsabilidades atendidas e os resultados, muitas vezes, alcançados. Ainda assim, algo pode permanecer ausente: a percepção de estar participando da própria existência.

Essa dinâmica também pode ser observada na mulher que se acostumou a resolver tudo, assumir responsabilidades e estar disponível para atender às necessidades dos outros. Com o tempo, a capacidade de suportar e seguir em frente pode deixar de ser apenas uma resposta às circunstâncias e passar a fazer parte da própria identidade. O descanso pode trazer culpa, a tranquilidade parecer estranha e os desejos pessoais permanecerem adiados, à espera de um momento em que todas as obrigações estejam cumpridas.

Para Noélli Santiago, fundadora do Núcleo NS e criadora do Método Código Oculto™️, essa distinção merece atenção porque revela uma questão que ultrapassa o bem-estar individual e alcança a maneira como construímos nossa identidade e reconhecemos nosso próprio valor.

“É possível cumprir todas as obrigações, conquistar reconhecimento e continuar profundamente distante de si. A vida acontece, mas a pessoa já não consegue se perceber dentro dela”, observa.

Durante muito tempo, a capacidade de suportar dificuldades foi associada à força pessoal. Ser alguém que aguenta, resolve, produz e segue em frente tornou-se uma característica socialmente valorizada. A resistência é, de fato, uma capacidade humana importante. Entretanto, quando suportar se transforma no principal critério de valor pessoal, o indivíduo pode começar a organizar sua identidade em torno daquilo que consegue enfrentar, e não daquilo que deseja construir.

A questão é particularmente relevante em uma cultura que frequentemente confunde disponibilidade permanente com comprometimento, excesso de trabalho com realização e ausência de descanso com determinação. Nesse contexto, até mesmo o sofrimento pode adquirir uma função identitária. Algumas pessoas passam a reconhecer o próprio valor principalmente na capacidade de superar adversidades, como se uma vida menos sacrificada fosse também uma vida menos significativa.

Noélli chama atenção para uma contradição presente nesse comportamento: a pessoa pode desenvolver grande competência para administrar crises e, ao mesmo tempo, encontrar dificuldade para experimentar tranquilidade, prazer e satisfação sem culpa. “A gente aprende a resolver problemas, mas nem sempre aprende a habitar a vida quando não existe um problema para resolver. E isso muda completamente a maneira como nos relacionamos com o presente.”

Essa repetição de comportamentos não acontece por acaso. A neuroplasticidade, capacidade do sistema nervoso de se modificar em resposta às experiências e ao aprendizado, oferece uma perspectiva importante para compreender como hábitos e padrões podem se consolidar ao longo do tempo. Experiências repetidas influenciam processos de aprendizagem, atenção e resposta emocional. Assim, determinadas maneiras de reagir podem se tornar automáticas, mesmo quando as circunstâncias que as originaram já não estão presentes.

Em contextos de estresse persistente, por exemplo, podem ocorrer alterações na atenção, no sono e na regulação emocional. A pessoa pode encontrar maior dificuldade para se desligar das preocupações, descansar ou direcionar sua atenção para experiências que não estejam relacionadas às demandas imediatas. É importante distinguir, porém, os efeitos estudados do estresse crônico de interpretações mais amplas sobre a experiência de viver em estado de sobrevivência. A neurociência não estabelece uma divisão universal entre um cérebro que sobrevive e outro que vive. Trata-se de uma distinção existencial, que pode dialogar com conhecimentos científicos sem se confundir com um diagnóstico.

Na perspectiva de Noélli, compreender os padrões aprendidos é parte de um processo mais amplo de desenvolvimento da autonomia e de reconhecimento da própria identidade. “Nem tudo aquilo que repetimos representa quem somos. Muitas vezes, representa aquilo que aprendemos a fazer para nos adaptar às circunstâncias. Reconhecer essa diferença amplia nossas possibilidades de escolha.”

Essa compreensão ganha ainda mais importância quando observamos como muitas pessoas projetam a satisfação para um momento futuro. A tranquilidade virá depois da estabilidade financeira. O descanso, depois da próxima conquista. A convivência familiar, quando houver mais tempo. A liberdade, quando todas as responsabilidades estiverem resolvidas. O futuro passa a concentrar expectativas que raramente encontram espaço no presente.

Naturalmente, planejar e construir condições melhores de vida são atitudes necessárias. A dificuldade surge quando o planejamento deixa de servir à existência e passa a substituí-la. A busca permanente por uma condição ideal pode fazer com que experiências simples, como uma conversa sem pressa, uma refeição compartilhada ou um momento de silêncio, sejam percebidas como secundárias diante das exigências de desempenho.

Nesse cenário, qualidade de vida deixa de ser apenas uma questão de recursos disponíveis. Passa também pela possibilidade de fazer escolhas coerentes com aquilo que se considera importante, em vez de viver continuamente orientado por obrigações, expectativas externas e padrões que nem sempre correspondem aos próprios desejos.

Para Noélli, a discussão sobre sucesso precisa incorporar essa dimensão. “De que adianta construir uma vida inteira para um dia poder vivê-la? O tempo que utilizamos para chegar a algum lugar também é a nossa vida. Não existe uma existência provisória enquanto esperamos pela definitiva.”

A distinção entre sobreviver e sobre viver não propõe abandonar responsabilidades, negar dificuldades ou romantizar o presente. Também não significa que todos tenham as mesmas condições materiais e emocionais para reorganizar suas escolhas. Desigualdade social, insegurança financeira, condições de saúde e responsabilidades familiares influenciam concretamente as possibilidades de cada indivíduo. Por isso, falar sobre qualidade de vida exige reconhecer tanto a dimensão pessoal quanto as circunstâncias coletivas que moldam a experiência humana.

Ainda assim, existe uma reflexão que pode ser feita mesmo dentro das limitações reais: quanto da vida está sendo conduzido por escolhas conscientes e quanto está sendo simplesmente reproduzido por hábito, medo ou expectativa externa?

Essa pergunta está relacionada à autonomia, um dos elementos centrais do trabalho desenvolvido por Noélli, que articula comportamento humano, identidade e espiritualidade aplicada. Essa espiritualidade não se limita a práticas religiosas, mas envolve também uma investigação sobre sentido, valores e a relação entre aquilo que uma pessoa considera essencial e a maneira como efetivamente vive.

A coerência entre essas dimensões não elimina os desafios, mas pode oferecer critérios mais claros para decisões, relações e prioridades. Reconhecer os padrões que conduzem nossos comportamentos permite questionar se eles ainda fazem sentido e se estão alinhados à vida que desejamos construir.

Talvez uma das transformações mais relevantes do nosso tempo seja justamente a necessidade de revisar os critérios pelos quais avaliamos uma vida bem-sucedida. Durante décadas, crescimento profissional, patrimônio, reconhecimento e produtividade ocuparam posição central nesse imaginário. Esses elementos continuam importantes, mas não respondem, isoladamente, à pergunta sobre o que torna uma existência satisfatória. A discussão contemporânea sobre bem-estar amplia essa perspectiva ao considerar aspectos como saúde, vínculos sociais, autonomia, propósito e condições de vida.

Nesse sentido, sobreviver e sobre viver não representam dois grupos fixos de pessoas. São experiências que podem coexistir e se alternar ao longo de uma mesma trajetória. Haverá períodos em que resistir será necessário. Outros em que reconstruir será prioridade. E momentos em que a principal tarefa talvez seja reconhecer que a vida não precisa estar permanentemente ameaçada para merecer atenção.

A reflexão proposta por Noélli não está em negar o valor da sobrevivência, mas em questionar o momento em que ela deixa de ser uma necessidade e se transforma em horizonte. Porque resistir pode nos permitir chegar até amanhã. Mas é a maneira como participamos do hoje que determina quanto da nossa existência estamos, de fato, vivendo.

By João Costa

João Costa é jornalista, assessor de imprensa, comunicador, relações públicas, colunista internacional além de membro do ecossistema OVAL TABLE, membro da Associação Paulista de Imprensa (API) e da Associação Brasileira de Imprensa e Mídia Eletrônica (ABIME). Reconhecido por sua atuação em prol das questões sociais e da promoção das relações humanas, defende de forma intransigente a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão. Sua trajetória é marcada por uma atuação coerente e estratégica na área de comunicação como um todo. Principais trabalhos * Editor – chefe e assessor de imprensa na Agência de Comunicação AN CONNECT * Assessor de imprensa e comunicação do Dr. Cesar Romão (advogado, escritor, conferencista internacional e diretor do Conselho Superior da Associação Paulista de Imprensa) * Assessor de Imprensa da Miss Paraná 2025 e uma das finalistas do Miss Brasil Paula Assunção, bem como, assessoramento de misses e modelos nacionais e internacionais * Assessor de Imprensa da Miss Austrália Bruna Guimarães *Coordenador de comunicação e Articulista do Observatório da Comunicação Institucional em São Paulo * Assessor de Imprensa e Articulista do Instituto Palavra Aberta, Ao longo de sua carreira, recebeu importantes reconhecimentos, entre eles: • Prêmio Notável como Destaque em Comunicação • Prêmio Odarcio Ducci de Jornalismo • Prêmio ABIME Comunicação da Associação Brasileira de Imprensa de Mídia Eletrônica • Prêmio Iberoamericano de Jornalismo • Prêmio de Referência em Comunicação pela ANCEC – Agência Nacional de Cultura, Empreendedorismo e Comunicação. Sua experiência internacional inclui participação em eventos da Embaixada do Gabão no Brasil, onde atuou como intérprete oficial durante um jantar beneficente, a convite do embaixador, com a presença do Vice-presidente da República. Além disso, João Costa participa ativamente de congressos, conferências, workshops e eventos online, sendo uma voz influente nas discussões sobre mídia, cultura e direitos sociais. Instagram: @joaocostaooficial LinkedIn: João Costa Registro Profissional: 0087452/SP – FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas)

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