A criação de empregos formais avança no Ceará, mas a distribuição das oportunidades pelo território permanece como um dos principais desafios econômicos do Estado. Em julho, foram abertas 4.181 vagas com carteira assinada, elevando para aproximadamente 28,7 mil o saldo acumulado entre janeiro e julho de 2026. Fora dos grandes centros urbanos, porém, boa parte da população continua dependente de atividades informais e ocupações de baixa remuneração.
Estudo publicado pelo Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece), em maio deste ano, revela que 91% dos municípios cearenses possuem mais da metade da população ocupada trabalhando na informalidade. Em aproximadamente 31% das cidades, a proporção ultrapassa 70%.
Os índices mais elevados foram encontrados em Salitre, onde 88,2% dos ocupados estavam na informalidade; Parambu, com 80,1%; Aiuaba, com 79,8%; e Piquet Carneiro, com 78,9%. Os dados municipais têm como referência o Censo Demográfico de 2022 e mostram que o problema se concentra, principalmente, no trabalho por conta própria sem CNPJ e nos empregos sem carteira assinada.
Para o empresário, ex-secretário da Agricultura do Ceará e especialista em desenvolvimento regional Carlos Matos, a realidade evidencia a necessidade de recolocar o agronegócio no centro de uma estratégia de geração de emprego e renda no interior.
“O Ceará precisa tratar o agro como uma política permanente de desenvolvimento regional. Isso significa olhar não apenas para a produção dentro da propriedade, mas para toda a cadeia econômica que pode ser formada a partir dela, com assistência técnica, beneficiamento, armazenamento, transporte, comercialização e agroindústria”, afirma.
Potencial econômico
A agropecuária está entre os setores que apresentaram saldo positivo de empregos formais no Ceará em julho. O potencial do segmento, no entanto, vai além das vagas diretamente ligadas ao cultivo, à criação de animais ou à produção de alimentos. A instalação de pequenas e médias agroindústrias pode ampliar a demanda por profissionais nas áreas de logística, manutenção, administração, tecnologia, comércio e prestação de serviços.
Na avaliação de Carlos Matos, o interior cearense ainda perde parte da riqueza que produz porque muitos produtos deixam os municípios sem passar por processos de beneficiamento. Com isso, etapas capazes de agregar valor e criar empregos acabam realizadas em outras regiões.
“Quando uma matéria-prima sai do município sem ser transformada, não é apenas o produto que vai embora. Parte da renda, da arrecadação e dos empregos também sai. Precisamos criar condições para que o produtor avance na cadeia e para que a riqueza permaneça onde ela é produzida”, destaca.
A expansão dessas atividades pode contribuir para reduzir a dependência do trabalho informal. O desafio envolve especialmente municípios pequenos, nos quais a economia está concentrada no comércio, nos serviços públicos, na agricultura de baixa produtividade e no trabalho autônomo.
O rendimento domiciliar mensal per capita do Ceará chegou a R$ 1.390 em 2025, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Embora o indicador tenha avançado e a renda real dos 10% mais pobres tenha crescido mais de 40% entre 2022 e 2025, as diferenças econômicas entre Fortaleza, os polos regionais e os municípios menores permanecem expressivas.
Tecnologia e produtividade
A ampliação do emprego e da renda no campo passa pelo aumento da produtividade, mas o acesso à inovação ainda ocorre de forma desigual. Tecnologias disponíveis no mercado permitem reduzir o tempo de criação do gado, elevar a produção de leite e ampliar a produtividade de cadeias como a carcinicultura e a fruticultura irrigada. Esses recursos, entretanto, permanecem distantes de muitos pequenos e médios produtores.
“O Ceará já dispõe de conhecimento, pesquisa e experiências bem-sucedidas. O que falta é fazer essa tecnologia chegar à ponta. O pequeno produtor não pode ser condenado a produzir menos simplesmente porque não teve acesso à assistência técnica, ao crédito ou aos equipamentos adequados”, observa Carlos Matos.
A qualificação também precisa acompanhar as características econômicas de cada região. Vale do Jaguaribe, Cariri, Serra da Ibiapaba, Sertão Central e Inhamuns apresentam vocações produtivas e condições ambientais distintas. Para Matos, políticas uniformes, desenhadas sem considerar essas diferenças, têm pouca capacidade de alterar a realidade local.
“Cada território precisa ter um projeto próprio, construído a partir de suas potencialidades. Em algumas regiões, a prioridade pode ser a fruticultura; em outras, leite, carne, ovinos, caprinos, mel, camarão ou agroindústria. O desenvolvimento não acontece com uma fórmula única aplicada aos 184 municípios”, afirma.
Irrigação
A recuperação dos perímetros irrigados aparece entre as medidas consideradas essenciais para ampliar a produção e atrair novos investimentos. Essas áreas tiveram participação importante no desenvolvimento da fruticultura e na geração de empregos em diferentes municípios, mas parte delas enfrenta limitações de infraestrutura, gestão e acesso à água.
Para Carlos Matos, a agricultura irrigada precisa voltar a ser tratada como instrumento de desenvolvimento regional, com planejamento hídrico, modernização dos sistemas e uso mais eficiente da água.
“Não podemos discutir o futuro do agro cearense sem recuperar a capacidade produtiva dos perímetros irrigados. Precisamos de uma irrigação moderna, com tecnologia para gastar menos água e produzir mais. Segurança hídrica não significa apenas disponibilidade de água, mas gestão, infraestrutura e eficiência”, diz.
A estratégia também depende da melhoria das estradas, do fornecimento de energia, da conectividade rural e das estruturas de armazenamento. Sem essas condições, produtores enfrentam custos maiores, perdas de produção e dificuldades para alcançar novos mercados.
O crédito é outro ponto decisivo. Linhas de financiamento precisam considerar o ciclo das atividades, os riscos climáticos e a capacidade financeira dos produtores. A assistência técnica, por sua vez, deve acompanhar a contratação do financiamento para evitar que o recurso seja aplicado sem orientação produtiva ou planejamento de mercado.
“O Ceará não precisa copiar o modelo de Goiás, Mato Grosso ou Paraná. Precisa desenvolver o agro que nossas condições permitem liderar: mais tecnológico, eficiente no uso da água, integrado à agroindústria e preparado para gerar riqueza no interior. Não basta produzir mais. É preciso produzir melhor, industrializar mais e fazer essa riqueza permanecer no Ceará”, pontua Carlos Matos.
