Um paradoxo silencioso marca o desenvolvimento de crianças e adolescentes no Brasil: enquanto a introdução das meninas ao consultório ginecológico na puberdade é tratada de forma natural e preventiva pelas famílias, os meninos atravessam as mesmas transformações biológicas em um completo isolamento clínico e pedagógico.
Dados do Sistema de Informações Ambulatoriais (SIA) do Ministério da Saúde apontam que o atendimento de jovens do sexo masculino entre 12 e 19 anos em consultas urológicas é até 18 vezes menor do que o de meninas da mesma faixa etária em ginecologistas. Além disso, levantamentos da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) revelam que mais de 70% dos homens adolescentes nunca pisaram em um consultório especializado por vergonha, falta de incentivo familiar ou desconhecimento sobre o próprio corpo, um cenário que alimenta diretamente os índices de negligência médica na fase adulta.
De acordo com a Psicóloga e Neuropsicóloga Sarah Rebeca Barreto, a conhecida resistência do homem adulto em buscar assistência médica não nasce do acaso; ela é cuidadosamente plantada na infância, quando os meninos são ensinados, de forma velada, que manifestar incertezas ou demonstrar dores é um sinal de fraqueza.
“Quando a sociedade e as famílias não criam um lugar seguro para o menino olhar para o próprio corpo, fazer perguntas sem julgamentos e entender a própria saúde, estamos transmitindo a mensagem de que a vulnerabilidade não pertence a ele. Meninos crescem sob a falsa premissa de que precisam ‘se virar’ e que o corpo é apenas uma ferramenta de performance e força, nunca de zelo. Precisamos questionar essa lógica dentro de casa e mostrar ao filho que cuidar de si é uma demonstração de maturidade e coragem”, explica a especialista.
A ausência de orientação especializada durante a transição para a adolescência masculina traz repercussões que ultrapassam os indicadores de saúde física, afetando de forma direta o comportamento e os relacionamentos interpessoais. Segundo a neuropsicóloga, o aprendizado sobre o próprio desenvolvimento biológico é a chave para a construção de uma masculinidade mais empática e consciente dos limites alheios.
“O menino que aprende sobre o próprio corpo aprende, por consequência, a respeitar o corpo do outro. Quando o jovem compreende o que é uma mudança hormonal, o que é um desconforto e o que significa estar vulnerável, ele desenvolve a capacidade de se colocar no lugar do parceiro. Isso transforma profundamente a forma como ele vai se relacionar, a maneira como acolherá e compreenderá um ‘não’, e a forma como encarará suas primeiras experiências afetivas”, reforça.
A educadora parental também enfatiza que a responsabilidade por essa transformação estrutural deve ser compartilhada coletivamente, quebrando a inércia de esperar que o adolescente tome a iniciativa de romper o silêncio por conta própria.
“Não podemos delegar essa função de forma isolada à escola, aos pais ou aos urologistas. É uma demanda cultural abrangente. Se temos um jovem em fase de crescimento, não devemos esperar que ele venha até nós com as perguntas, pois o silêncio e o constrangimento costumam ser a regra imposta a eles pela cultura do ‘se vira’. Devemos nos antecipar, oferecendo as respostas, legitimando as angústias e abrindo caminhos concretos de acolhimento clínico e emocional. Ocupar esse espaço com urgência é o único meio de formar homens mais saudáveis e emocionalmente responsáveis”, conclui Sarah Rebeca Barreto.
