• qua. maio 27th, 2026

InFluxo Portal

O portal de notícias que traz o melhor da cultura, moda, saúde, bem-estar, economia e muito mais!

O câncer cerebral e as mudanças de comportamento e personalidade

Quando pensamos em câncer, os tumores do sistema nervoso central raramente são os primeiros que vêm à mente. Em geral, a atenção da população se volta para doenças mais frequentes, como os cânceres de mama, próstata ou pulmão. Ainda assim, o impacto dos tumores cerebrais é profundo, porque eles atingem justamente o órgão responsável por nossa memória, linguagem, movimentos, emoções e personalidade.

Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar cerca de 12 mil novos casos anuais de tumores do sistema nervoso central entre 2026 e 2028. Embora representem uma parcela menor dos diagnósticos oncológicos, essas doenças carregam alta complexidade e importante taxa de mortalidade, além de um impacto significativo na qualidade de vida dos pacientes e de suas famílias.

Neste Maio Cinza, campanha de conscientização sobre os tumores cerebrais, é fundamental chamar atenção para um dos maiores desafios da prática clínica: o diagnóstico precoce. Isso porque os primeiros sinais costumam surgir de forma discreta, lenta e inespecífica. Dores de cabeça persistentes frequentemente são atribuídas ao estresse ou à enxaqueca. Falhas de memória, lapsos de atenção e episódios de confusão mental acabam relacionados ao excesso de trabalho, à ansiedade ou ao cansaço cotidiano.

Contudo, existe um aspecto ainda pouco discutido e extremamente delicado: as alterações cognitivas e comportamentais provocadas pelas lesões cerebrais. Dependendo da região afetada, especialmente áreas como o lobo frontal e o sistema límbico, o tumor pode modificar significativamente a maneira como a pessoa pensa, reage e se relaciona. Pacientes podem apresentar apatia, irritabilidade, impulsividade, agressividade ou desinibição, muitas vezes sem perceber essas mudanças em si mesmos.

Em uma sociedade acostumada a separar mente e corpo, alterações emocionais ou de personalidade tendem a ser interpretadas como questões psicológicas, como depressão, ansiedade ou burnout. Com isso, sinais importantes podem ser banalizados, retardando a investigação médica adequada. Não é raro que o primeiro alerta venha da própria família ao perceber que aquela pessoa “já não parece mais a mesma”.

Também é importante dar atenção a grupos específicos de risco. Entre adultos com histórico de câncer, as metástases cerebrais (especialmente originadas de tumores de pulmão, mama, melanoma e rim) são mais frequentes do que os tumores cerebrais primários. Nesses casos, qualquer sintoma neurológico novo e persistente merece investigação criteriosa.

Nas crianças, os tumores do sistema nervoso central estão entre os tumores sólidos mais comuns. Mudanças no rendimento escolar, sonolência excessiva, desequilíbrio, dores de cabeça recorrentes e episódios de vômito sem causa aparente são sinais que não devem ser ignorados.

Após o diagnóstico, o tratamento exige um cuidado altamente especializado. Cirurgia, radioterapia e quimioterapia precisam atuar em equilíbrio delicado: combater a doença sem comprometer funções neurológicas essenciais. Por isso, o manejo desses pacientes vai muito além do tratamento oncológico em si.

Falar sobre tumores cerebrais também é falar sobre preservação de autonomia, funcionalidade e dignidade. A atuação multidisciplinar, envolvendo neurologistas, neurocirurgiões, oncologistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, nutricionistas e equipes de cuidados paliativos, é indispensável para oferecer um cuidado mais completo e humanizado.

A principal mensagem não deve ser de medo, mas de atenção. Dores de cabeça ocasionais e esquecimentos pontuais fazem parte da vida. O sinal de alerta surge quando sintomas se tornam persistentes, progressivos ou passam a interferir na rotina, especialmente quando associados a convulsões, alterações na fala, visão, equilíbrio, confusão mental ou mudanças importantes de comportamento.

Escutar os sinais do corpo, e também da mente, pode fazer toda a diferença. Porque, em muitos casos, reconhecer precocemente essas mudanças é o primeiro passo para proteger não apenas a vida, mas também aquilo que nos torna quem somos.

Artigo escrito por Rodrigo Coutinho Mariano, oncologista especialista em tumores geniturinários, tumores  torácicos e sistema nervoso central da Croma Oncologia.

By Redação

O portal de notícias que traz o melhor da cultura, economia, moda, saúde, gastronomia, turismo e entretenimento no Brasil. Contato: influxoportal@gmail.com | Redes Sociais: @influxoportal | Youtube: https://www.youtube.com/@influxoportal

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *